quarta-feira, 30 de junho de 2010

DOIS ANDARES ABAIXO DO MEU

DOIS ANDARES ABAIXO DO MEU

Eliane Brum

Eu nunca tinha ouvido falar dela. Vivo neste edifício de 70 apartamentos há alguns anos. A maioria dos moradores só encontro na reunião de condomínio. Há o velho que toma sol pela manhã e que me cumprimenta sorridente porque lá em casa a gente se dá tchau na janela quando alguém sai. Ele acha curiosíssimo e acompanha o ritual enternecido. Há as mulheres que passeiam com os cachorros, e as que fiscalizam o crescimento das roseiras do jardim. Existe a vizinha que sempre tenta me vender produtos de beleza. E o Pedrão, um aumentativo irônico para um cachorro tão pequeno, tão desmilinguido e cego pela idade, que sobe e desce o elevador comigo, protegendo com olhos erráticos um dono que é quase um gigante. Há o vizinho de passo marcial que não cumprimenta ninguém. E ela, que morava lá havia uma eternidade, mas a quem eu nunca vira.

Numa tarde vêm o chaveiro, os bombeiros e a polícia. Arrombam a porta do apartamento. E somos todos lançados para dentro de uma paisagem muito semelhante à nossa, mas que era dela. As histórias de sua vida me alcançam aos farrapos. Aos 82 anos ela vivia só. Tinha sido médica, com consultório no centro de São Paulo. Era uma mulher independente, que veio do interior para vencer na cidade grande quando as mulheres de sua geração apenas recolhiam os passos até a casa do marido. Viajou o mundo, falava várias línguas, expressas nos livros espalhados pela casa. Não sei de seus amores, ninguém ali sabe. De repente, ela descobriu-se só. Não queria morrer, só não sabia como seguir vivendo. Resistiu viva – morrendo.

Há dois anos ela estacionou sua Brasília vermelha meticulosamente limpa e bem conservada numa vaga tamanho G. E nunca mais a tirou de lá. Poderia ter sido um sinal, mas um sinal só se torna um sinal se for decodificado. Este gerou apenas uma multa do condomínio. O carro deveria estar numa vaga M. Talvez P. Há pouco mais de um ano ela deixou de pagar a conta do condomínio. O acúmulo da dívida virou um processo judicial e uma primeira audiência a qual ela não compareceu. Outra pista não decifrada.

A vizinha do lado percebeu que ela não mais saía de casa. Insistiu com o síndico, com o zelador, algo estava errado. Ela nem atendia mais a porta, e um cheiro novo se impregnava no corredor. Mas a lei não escrita da cidade grande determina não perturbar a privacidade de ninguém. Cada um é uma ilha – ou um apartamento. Proprietário-indivíduo de seu número de metros quadrados aéreos no mundo. Os funcionários do condomínio devem avisar pelo interfone quando vão entregar uma correspondência que precisa ser assinada porque, do contrário, muitos moradores sequer abrem a porta. E ela era conhecida como “a doutora”, o título um abismo que ela e tantos se esforçam para cavar. Ninguém ousou perguntar se algo diferente, algo pior, estava acontecendo com ela.

Naquela tarde a conhecida de uma associação onde ela trabalhava como voluntária veio procurá-la, preocupada com seu sumiço. Ela então conseguiu se arrastar e sussurrar que não tinha forças para abrir a porta. Quando a porta caiu, e os fossos foram transpostos, descobriu-se que havia dois meses ela vivia no escuro, à luz de velas primeiro, nada depois. A energia elétrica tinha sido cortada por falta de pagamento. Há semanas ela não comia. Já não podia andar. A doutora estava morrendo de fome em meio a centenas de pessoas na cidade de milhões. Em sua própria sujeira.
Num prédio de classe média de São Paulo, ela estava mais isolada que qualquer ribeirinho dos confins da Amazônia. Não queria que descobrissem que havia perdido o controle da sua vida. E quando quis pedir ajuda, já não teve forças. Imagino quanto desespero sentia para conseguir romper as amarras de toda uma existência, se arrastar até a porta e admitir que não era mais capaz de abrir. Foi levada ao hospital, onde agora briga para viver.

Ela morava dois andares abaixo do meu. Quando eu soube, fiquei rememorando os últimos meses. Enquanto eu trabalhava, cozinhava, bebia vinho, tomava chimarrão, gargalhava, assistia a filmes, me emocionava com livros, me indignava com acontecimentos, conversava, namorava, sonhava, fazia planos, escrevia esta coluna e às vezes chorava, dois andares abaixo do meu, num espaço igual ao meu, uma mulher de 82 anos morria de fome nas trevas, em abissal solidão.

Enquanto eu ria, ela morria. Enquanto eu comia, ela morria. Enquanto eu sonhava, ela morria. No escuro, ela morria no escuro enquanto eu abanava da janela, o velho sorria ao sol, uma vizinha tentava me vender um novo creme antirrugas e Pedrão rosnava cegamente no elevador sob o olhar terno de seu gigante.

Não consegui dormir por algumas noites porque me via arremessada ao outro lado da rua, tentando imaginar os enredos que se passavam atrás das cortinas daqueles outros 69 apartamentos. Que vidas são aquelas, que dores se escondem, quais são os dramas que sou impotente para estancar? Anos atrás, antes de eu morar no prédio, um homem se lançou pela janela e morreu estatelado na laje. Como tantos o tempo todo. Um soluço apavorante na rotina e depois o esquecimento. Como agora, nesse morrer sem sangue e sem alarde.

Numa fissura do tempo algo que não pode mais ser oculto se revela – revelando também o nosso medo. Portas são derrubadas, cortinas rasgadas por um corpo que se lança para o nada, para nós. E, talvez pior, por um corpo que se esconde até ser exposto pelo cheiro da decomposição ainda antes da morte, corroendo os muros de nossa privacidade protegida com tanto empenho. Como a dela.

Depois precisamos esquecer para seguir vivendo. Mas não consigo esquecer. O que aconteceu com ela está acordado dentro de mim como um bicho. Dentro de nós também há um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem e o suicida que nos habita se lança no vazio enquanto outros em nós se decompõem em vida pela morte dos dias que não acontecem. Mergulho então, além dos dois que nos separavam, vários andares em mim. E lembro-me de Mário Sá-Carneiro, escritor português: “Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto. E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim”.

Acredito que todos no prédio ficaram chocados, cada um à sua maneira. Porque ninguém percebeu a tempestade logo ali. Porque tudo se passou enquanto no avesso de cada janela tentávamos viver. Mas também – e talvez principalmente por isso – porque a tragédia se desenrolou no mesmo cenário onde tecemos o enredo de nossos dias.
O apartamento dela é igual ao nosso. Esta semelhança de condições e de arquitetura, de portas e de janelas, nos provoca um incômodo difícil de dissipar. Poderia ser nós a morrer de fome no escuro. Mesmo com uma história diversa, lá no fundo cada um de nós sabe que a solidão nos espreita. Que não estamos tão protegidos como gostaríamos. Seria mais fácil afastar nosso horror se fosse um assassino, uma morte por ciúme, uma violência cometida por um psicopata. Isto está sempre mais longe. Mas não. A doutora morria logo ali por solidão. E isto está bem perto.

Ela não viveu uma vida à toa. Ou uma vida egoísta. Ela apenas viveu mais tempo do que a maioria de seus amigos, que deve ter sepultado um a um. Mais tempo que os pacientes que tantas vezes salvou, e então o consultório ficou vazio. Ela tinha bens que poderia ter vendido quando ficou restrita a uma renda que não lhe permitia manter o padrão. Mas não tinha mais saúde para fazer o que era preciso. Com o tempo, não conseguia mais nem caminhar até o banco para buscar o dinheiro da aposentadoria ou pagar a conta de luz ou qualquer outra. Lentamente os fios de sua vida foram lhe escapando das mãos. E, no fim, quando percebeu que precisava romper o pudor cimentado nela e pedir ajuda, já não era capaz de andar pela casa para abrir a porta da rua e escancarar sua miséria. A doutora não queria morrer, só não tinha forças para viver neste mundo.

Por um tempo fiquei acordada pelas madrugadas, dormindo nas auroras, aterrorizada com as vidas desconhecidas abaixo e acima de mim, com os socorros que eu não sabia que precisava prestar, com o monstro de olhos abertos em mim. Devagar, comecei a pensar nas minhas escolhas. E agora tento aprender a amar melhor, para além das paredes de meus metros quadrados de mundo, mais iguais às dela do que eu e todos gostaríamos.

ELIANE BRUM
ebrum@edglobo.com.br
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

http://revistaepoca.globo.com/ Revista/Epoca/0,,EMI148941- 15230,00-DOIS+ANDARES+ABAIXO+ DO+MEU.html

sexta-feira, 12 de março de 2010

Flores

O papel higiênico da empregada, por Martha Medeiros

Quando a gente é criança, acha que todo mundo é legal, que todo mundo é da paz, e de repente começa a crescer e vai descobrindo que não é bem assim. Eu lembro que, ainda menina, foi um choque descobrir que as pessoas mentiam, enganavam, eram agressivas. Porque aquelas pessoas não eram bandidas: eram colegas de aula, gente conhecida. Eu ficava confusa. Fulana era generosa com os amigos e, ao mesmo tempo, extremamente estúpida com a própria mãe. Beltrana ia à missa todo domingo e nos outros dias remexia na mochila dos colegas para roubar material escolar. Cicrana era sua melhor amiga na terça-feira e na quarta não olhava pra sua cara. Eu chegava em casa, pedia explicações pra família e recebia como resposta: bem-vinda ao mundo. Eu queria o impossível: olhar para uma pessoa e saber o que poderia esperar dela. Era uma pessoa do bem? Do mal? Poderia me decepcionar? Todas as pessoas decepcionam, todas cometem erros, mas eu queria encontrar alguma espécie de comportamento que me desse uma pista segura sobre com quem eu estava lidando. Até que certo dia fui na casa de uma colega. De repente, precisei ir ao banheiro. Só havia um no apartamento, e ocupado. Eu estava apertada. Apertadíssima. Minha amiga sugeriu que eu usasse o banheiro da empregada, topei na hora. E lá descobri que o papel higiênico da empregada era diferente do papel usado pelos outros membros da família. Era mais áspero. Parecia uma lixa. Muito mais barato. Era um costume, e talvez seja até hoje: comprar um tipo de papel higiênico para a família e outro, de pior qualidade, para o banheiro de serviço. Eis ali a pista que eu inocentemente buscava para descobrir a índole das pessoas. Hoje, adulta, sei que descobrir a índole de alguém é um processo muito mais complexo, mas ainda me surpreendo que algumas pessoas façam certas diferenciações. O relacionamento entre empregados e patrões ainda é uma maneira de se perceber como certos preconceitos seguem bem firmes. Não é por economia que se compra papel higiênico mais barato pra empregada, por mais que seja este o argumento usado por quem o faz. É para segmentar as castas. É para manter a hierarquia. É pela manutenção do poder. As pessoas querem tanto acabar com as injustiças sociais e, às vezes, não conseguem mudar pequenas regras dentro da sua própria casa. Cada um de nós tem um potencial revolucionário, que pode manifestar-se através de pequenos gestos. Comprar o mesmo papel higiênico para todos, quem diria, também é uma maneira de lutar por um mundo melhor.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Lição

As sandálias do discípulo ressoavam surdamente nos degraus de pedra que levavam aos porões do velho mosteiro.
Empurrou a pesada porta de madeira que cerrava os aposentos do ancião e custou a localizá-lo na densa penumbra, o rosto velado por um capuz, sentado atrás de enorme escrivaninha onde, apesar do escuro, fazia anotações num grande livro, tão velho quanto ele.
E o discípulo o inquiriu:
- Mestre, qual o sentido da vida?
O idoso monge, permanecendo em silêncio, apenas apontou um pedaço de pano, um trapo grosseiro no chão junto à parede e logo após, seu indicador ossudo e encarquilhado mostrou logo acima, no alto do aposento o vidro da janela, opaco sob décadas de poeira e teias de aranha.
O discípulo pegou o pano e subindo em algumas prateleiras de uma pesada estante forrada de livros conseguiu alcançar a vidraça, começando então a esfregá-la com vigor, retirando a sujeira que impedia sua transparência.
O sol inundou o aposento, banhando com sua luz estranhos objetos, instrumentos raros e dezenas de papiros e pergaminhos com misteriosas anotações e signos cabalísticos.

O discípulo, sem caber em si de contentamento, a fisionomia denotando o brilho da satisfação declarou:
- Entendi, mestre. Devemos nos livrar de tudo que obste nosso aprendizado; buscar retirar o pó dos preconceitos e as teias das opiniões que impedem que a luz do conhecimento nos atinja e só então poderemos enxergar as coisas com mais nitidez, partindo então para a evolução.
E assim, o jovem discípulo fez uma reverência deixou o aposento, agora iluminado, a fim de dividir com os outros a lição recém aprendida.
O velho monge, o rosto enrugado ainda encoberto pelo largo capuz, os raios do sol da manhã agora banhando-o com uma claridade a que se desacostumara, viu o discípulo se afastando e deixou escapar um tênue sorriso.
- Mais importante do que aquilo que alguém mostra é o que o outro enxerga... pensou ele.
E murmurando baixinho:
- Eu só queria que ele colocasse o pano no lugar de onde caiu.

E-MAIL ERRADO

Um homem deixou as ruas cheias de neve de Chicago para umas férias na ensolarada Flórida. A sua esposa estava numa viagem de negócios e estava a planejar encontrá-lo lá no dia seguinte. Quando o homem chegou ao hotel resolveu mandar um e-mail para a sua mulher. Como não achou o papel em que tinha anotado o endereço do e-mail dela, tirou da memória o que se lembrava e torceu para que estivesse certo. Infelizmente ele errou numa letra e a mensagem foi para a mulher de um pastor. Este pastor tinha morrido no dia anterior. Quando ela foi ver os seus e-mails, deu um grito de profundo horror e caiu dura e morta no chão. Ao ouvir o grito, os seus familiares correram para o quarto e leram o seguinte:" Querida esposa, acabei de chegar. Foi uma longa viagem. Aqui é tudo muito bonito, muitas árvores, jardins... Apesar de só estar aqui há poucas horas, já estou a gostar muito. Agora vou descansar. Falei aqui com o pessoal e está tudo preparado para a tua chegada amanhã. Tenho a certeza de que também vais gostar... Beijos do teu eterno e amoroso marido.PS: Está fazendo um calor infernal aqui!!!"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Estamos com fome de amor

Estamos com fome de amor – (Arnaldo Jabor) 10/11/2007


Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e
transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam
sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que
estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.
Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os
novíssimos “personal dance”, incrível. E não é só sexo não, se fosse, era
resolvido fácil, alguém duvída?
Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.
Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”, só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.
Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como:
“Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra ser sozinho!” Unindo milhares ou melhor milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.
Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.
Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.
Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí?
Seja ridículo, não seja frustrado, “pague mico”, saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à dois.
Quem disse que ser adulto é ser ranzinza, um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: “vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”.

Antes idiota que infeliz!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O REENCONTRO

Paulinho vivia triste e solitário em um orfanato desde o dia em que nasceu. Maior que todos os outros orfãos de lá, ele sonhava em ter um lar, uma família e também, que um dia ele pudesse voar como os pássaros. Ele queria ser livre como eles para ir onde quisesse. Conforme ele foi crescendo, foi compreendendo o porquê de não ter pais, mas era muito difícil para ele entender porque não podia voar. Sempre que o orfanato organizava excursões ao Zoológico, ele ficava encantado com os pássaros. Se o deixassem, ele ficaria somente apreciando as aves do lugar e enquanto ele as admirava, uma pergunta teimava em ecoar em sua mente.

- Se aqui no Zoológico existem pássaros muito maiores do que eu, e eles podem voar, por que eu não posso? Ele pensava.

- Será que há alguma coisa errada comigo? Ele imaginou.

Perto do orfanato onde Paulinho vivia, morava um menino que era deficiente físico. Ele não podia andar. O garotinho tinha um sonho. Ele sempre desejou poder correr como os outros meninos e meninas da vizinhança. Sempre que seu velho pai o levava à pracinha para tomar sol, ele ficava olhando as outras crianças correndo e brincando de um lado para o outro, e uma pergunta também teimava em ecoar em sua mente:

- Por que eu não posso ser igual a todas as outras crianças? Ele pensava.

Certo dia, Paulinho que queria poder voar igual aos pássaros, pulou o muro do orfanato e fugiu. Ele apenas atravessou a rua movimentada e se viu na pracinha, ao lado da piscina de areia onde ele viu o pequeno garoto deficiente, que não podia caminhar, nem correr como as outras crianças do lugar. Ele nunca tinha visto o garoto e não sabia que ele era deficiente. Paulinho se aproximou do pequenino que estava sentado brincando de fazer castelos de areia e perguntou a ele se nunca tinha tido vontade de voar como os pássaros e o garotinho respondeu:

-Não. Mas eu sempre fico imaginando como seria bom se eu pudesse andar e correr igual aos outros meninos e meninas.

Foi então que ele descobriu a deficiência do garotinho, e com o coração apertado pelo sofrimento dele, Paulinho que sempre quis poder voar disse a ele:

-Isto é muito triste.

-Será que podemos ser amigos?

Surpreso, o menino deficiente disse que sim. Os dois sorriram um para o outro e brincaram por horas a fio. Eles fizeram juntos muitos castelos de areia e varias esculturas com a ajuda da água que Paulinho ia buscar na fonte com a ajuda do pequeno balde de plástico do menino. Eles riram muito o tempo todo das coisas engraçadas que faziam ou diziam. Já havia passado muito tempo desde que começaram a brincar juntos. Já era quase hora do almoço quando o pai do pequenino veio buscá-lo com a cadeira de rodas. Ao ver a cadeira onde seu novo amiguinho vivia sentado a maior parte do tempo, o coração de Paulinho disse a ele o que deveria ser feito. O garoto órfão, que sempre quis voar como os pássaros e não podia, aproximou-se do pai do pobre menino e disse-lhe algo no ouvido.

- Tudo bem, se é isto mesmo o que quer fazer. Disse o homem sorrindo.

Paulinho, o pequeno órfão que sempre quis voar como os pássaros, correu para perto do seu novo amiguinho e disse:

- Você é o meu primeiro e único amigo nesta vida. Eu agradeço por ter passado ao meu lado todas estas horas e quero que saiba que eu nunca fui tão feliz assim. Gostaria muito de ter o poder de fazer alguma coisa para que você pudesse andar e correr como as outras crianças, mas eu sinto muito por não poder.

O menino deficiente olhou para ele com lágrimas nos olhos e disse que estava tudo bem. Afinal ele já estava mesmo acostumado a ficar sentado o tempo todo. Foi então que Paulinho disse a ele que mesmo não podendo ajudá-lo a andar e correr, ainda tinha uma coisa que poderia fazer por ele. O pequeno órfão aproximou-se da cadeira de rodas onde já estava sentado seu novo amigo, abaixou-se e pediu a ele que colocasse suas pernas em seus ombros e segurasse firme em suas mãos porque ele iria carregá-lo nas costas. O menino ficou confuso, não sabia se deveria ou não e olhou para seu pai. Ele balançou a cabeça em sinal de aprovação e então, sem muito esforço pelo fato dele ser muito menor do que ele e também magrinho, Paulinho o carregou nas costas.

A princípio, ele caminhou devagar, levando o pequenino nas costas que admirava tudo na pracinha sob outra perspectiva, e ele sorria como nunca. Quando ele pedia a Paulinho para ir numa certa direção, ele o fazia, e a cada passo, o menino sorria mais e mais. Ele estava andando! Ele podia ir onde ele quisesse com a ajuda de Paulinho! Em dado momento, Paulinho ao ve-lo tão feliz, lembrou-se também de seu sonho de poder voar. Foi então que ele começou a andar mais depressa com seu amiguinho em suas costas. Não demorou muito para que eles estivessem correndo sobre a grama do jardim. Confiante em seu novo amigo, o pequeno deficiente soltou as mãos dele, que passou a segura-lo pelas pernas para que não caísse. Ele pedia a Paulinho que fosse mais rápido, e mais rápido ele correu com ele sentado em seus ombros.

A certa altura, eles já estavam correndo tanto, que o vento começou a balançar os cabelos dos dois. O garotinho deficiente levantou os dois braços e começou a movimentá-los como se fossem as asas de um pássaro. Tanto Paulinho, quanto o pai do menino, começaram a chorar quando ele começou bater os braços ao vento, para cima e para baixo, como se fossem suas asas e maravilhado pelo que estava acontecendo, ele começou a gritar a toda voz, com o mais belo sorriso de alegria, liberdade e contentamento que uma criança pode ter em seus lábios:

- ESTOU VOANDO! ESTOU VOANDO!

Quando já estavam cansados, Paulinho o colocou de volta na cadeira, deu a ele um abraço como nunca dera ou recebera de alguém e disse que nunca mais o esqueceria. O menino sorrindo olhando-o nos olhos, agradeceu pelos momentos especiais que haviam vivido juntos e se despediu. O pai do menino deu um abraço apertado em Paulinho, dizendo que se encontrariam no mesmo lugar no dia seguinte. O menino órfão que sempre quis poder voar e não conseguiu, feliz por ter proporcionado ao seu novo amiguinho a sensação de estar voando, livre para ir onde quisesse, resolveu voltar ao orfanato. No dia seguinte pela manhã, um casal veio ao orfanato com a intenção de escolher uma criança para adotar, e no ultimo instante, quando já estavam prontos para ir embora, sem encontrar o que tinham ido procurar, Paulinho que estava do outro lado da casa, deu a volta para encurtar o caminho para o seu quarto, entrou correndo e quase os atropelou. Tudo que aconteceu depois, foi o que estava escrito que iria acontecer.

Eles se olharam e sorrindo, disseram ao mesmo tempo que Paulinho era o filho que procuravam. Naquele mesmo dia, ele foi adotado e levado para a casa de seus novos pais. Nunca mais ele teve noticias no seu amiguinho que conheceu na piscina de areia da pracinha. Por vezes, ele imaginava em como ele deveria ter ficado decepcionado pelo fato dele não ter ido encontrá-lo naquele dia em que partiu. O tempo passou. O menino que foi criado num orfanato desde que nasceu e foi adotado por um casal que passou a amá-lo como se fosse seu próprio filho. Ele estudou muito, formou-se, e o dia mais feliz de sua vida, foi quando finalmente ele conseguiu realizar seu velho sonho de poder voar. Após entrar para a aeronáutica, finalmente chegou o dia em que ele conseguiu tirar seu Breve de piloto. Numa manhã ensolarada, com um céu tão azul quanto o anil, ele decolou em seu primeiro vôo solo do Campo de Marte em Santana, rumo à Base Aérea de Cumbica em Guarulhos.

Tendo como cenário do lado de fora da carlinga de seu avião, apenas um imenso e infinito tapete azul, radiante por ter conseguido realizar seu sonho, ele não pode deixar de se lembrar de seu amiguinho. De quando ele gritava que estava voando sentado em seus ombros, enquanto corriam ao vento naquela pracinha. A emoção tomou conta de seu peito e ele não se conteve, e, a toda voz, sem se importar se alguém o estava ouvindo pelo rádio ou não, ele gritou chorando e sorrindo ao mesmo tempo:

- ESTOU VOANDO! ESTOU VOANDO!

Naquele exato momento, na cabine de Torre de Controle de Vôo da base aérea de Cumbica, com lágrimas nos olhos, pelo rádio um jovem controlador ouvia os gritos de felicidade de Paulinho, sem saber quem na verdade ele era, nem de onde tinha vindo. Ao ouvir os gritos do piloto, ele se lembrou do tempo em que não podia andar, da piscina de areia daquela pracinha perto de onde ele morava e do amigo que conheceu lá, do menino que proporcionou a ele os melhores momentos de sua infância carregando-o nas costas naquele dia, quando ele gritou de peito aberto, ao parecer estava voando, as mesmas palavras que ouviu do piloto pelo rádio. Do mais fundo de seu coração, ele desejou que um dia ele pudesse reencontrar Paulinho. Queria mostrar a ele que finalmente, com a ajuda de aparelhos, havia voltado a andar, podendo estudar e trabalhar normalmente e que graças a ele, e às lembranças daquele dia, ele decidiu tornar-se um controlador de vôo.

Pouco tempo depois, um avião é detectado pelo radar da Base Aérea de Cumbica e o controlador dá as instruções ao piloto:

- Arara GRU a Tucano SP na escuta?

- Tucano SP na escuta, fale Arara GRU.

- Tucano SP, inicie a descida para aterrissagem.

- Tucano SP entendido Arara GRU.

- Arara GRU para Tucano SP.

- Aqui Tucano SP, pode falar Arara GRU.

- Tucano SP, pouso liberado, pista lateral.

- Ok Arara GRU, fazendo a volta para aterrissar.

- Entendido Tucano SP, prossiga.

Ao aproximar-se da cabeceira da pista, Paulinho, agora o capitão Paulo, contemplou a imensa faixa negra da pista bem à sua frente. Quando os pneus traseiros tocaram o asfalto, seguidos logo depois pelos dianteiros, ele sorriu. Vôo perfeito para um principiante. Ele pensou. Após taxiar pela pista lateral da Base Aérea, observado do alto da torre pelo controlador de vôo, ele deixou o avião no hangar e de alguma forma, sentiu vontade de passar pela torre de controle e agradecer ao homem que o ajudou a pousar em segurança. Ao subir a escada, chegando onde ficavam os radares e os controladores, perguntando aos que estavam lá quem o havia instruído em sua aterrissagem, um deles apontou com o dedo um rapaz que estava apoiado numa muleta contemplando o vôo de algumas garças que voavam ao longe.

Ao aproximar-se, para chamar a atenção do rapaz que estava de costas, ele colocou levemente a sua mão no ombro dele. Quando ele se virou em sua direção, os dois emudeceram. Mesmo após longos anos distantes um do outro, eles se reconheceram. Foi como se um filme daquele dia na pracinha estivesse sendo exibido em suas mentes. Sem dizer uma única palavra, eles se abraçaram. Entre lágrimas e sorrisos, sob o espanto dos outros homens que estavam na torre, eles mataram as saudades e contaram um ao outro, tudo que aconteceu em suas vidas, desde aquele dia em que se conheceram.

Um queria voar e não podia, o outro queria andar e correr, mas também não podia.

Paulinho não conseguiu voar quando era pequeno, mas pode ensinar seu amigo a querer voar. Juntos, eles conseguiram, porque mesmo distantes um do outro, aprenderam que a liberdade não está só no fato de se poder voar, mas também no ato de sonhar, de acreditar em nossos sonhos, nos sonhos das outras pessoas e querer realizá-los, porque sem eles, ninguém pode, nem aprende a voar.

Contos-->O REENCONTRO -- 16/08/2009 - 14:05 (Jose Araujo)
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poema aos amigos

Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida
nem tenho resposta para as tuas duvidas ou medos
mas posso escutar-te e compartilhá-las contigo...

Não posso mudar o teu passado e futuro
mas quando precisares de mim, estarei junto a ti

Não posso evitar que tropeçes
só posso oferecer-te a minha mão para que te apoies e não caias

Tuas alegrias, triunfos e êxitos não são meus
mas disfruto sinceramente quando te vejo feliz

Não julgo as decisões que tomas na vida, limito-me a apoiar-te, a estimular-te e a ajudar-te, se mo pedes

Não posso traçar-te limites dentro dos quais deves agir, mas sim oferecer-te esse espaço, necessário para crescer

Não posso evitar teu sofrimento quando alguma pena te parte o coração
mas posso chorar contigo e recolher os pedaços para amar novamente

Não posso decidir quem és, nem quem deverias ser
só posso amar-te como és e ser teu amigo

Nestes dias pensei nos meus amigos e amigas
não estavas nem acima nem abaixo da média
Não começavas nem acabavas a lista
não eras o primeiro nem o último

(...)

E tão pouco tenho a pretensão de ser o primeiro, o segundo ou o terceiro da tua lista

Basta que me queiras como amigo...
Obrigado por o seres.