sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Cartas de Yokohama

DO SUSTO AO VER O CHELSEA PASSEAR CONTRA O MONTERREY À EMOÇÃO SENTIDA NA PALESTRA DO TÉCNICO TITE. OS DIAS QUE ANTECEDERAM A MAIOR CONQUISTA DA HISTÓRIA DO CORINTHIANS NARRADOS PELO ZAGUEIRO CORINTIANO. Por PAULO ANDRÉ* Foto: Fernando Roberto QUINTA-FEIRA, 13/12, 18h Chegamos ao hotel Sheraton, em Yokohama, e fomos direto a um espaço exclusivo, instalado no 4° andar, onde fizemos, a partir de então, todas as nossas refeições. A comida, que era preparada magistralmente pelo chef Jaime – cozinheiro oficial da CBF que nos acompanhou nessa viagem – já estava pronta e a Cris, nossa nutricionista, supervisionava todos os detalhes da mesa e fornecia comprimidos com suplementação específica para cada jogador. Eu estava cansado porque não havia conseguido dormir bem na noite anterior, em Nagoia, depois do difícil segundo tempo contra os egípcios do Al-Ahly. Apesar do corpo destruído pelo cansaço, a cabeça estava a mil tentando achar soluções para os nossos problemas. Durante o jantar, fomos informados de que a saída para assistir ao jogo entre Chelsea e Monterrey era às 19h, e o grupo de atletas que queriam ir ao estádio era enorme. Seria uma forma de reconhecer o local, sair um pouco do hotel, ver os adversários com os próprios olhos. Tudo isso poderia ajudar em nossa preparação, mas, durante o jantar, o Martínez e o Guerrero, que dividiam a mesa comigo, me convenceram a ficar no hotel. Disseram que poderíamos conversar durante o jogo, tranquilos e sem passar frio. Eu estava curioso para ver o Chelsea, mas o cansaço de nossa partida contra o Al-Ahly e a viagem de trem que havíamos acabado de fazer pesaram. Resolvi ficar e, ao entrar no meu quarto e esticar o corpo em cima da cama, percebi que tinha feito a escolha certa. Olhei para o relógio, já eram 19h30 e eu nem tinha me mexido, ainda. Estava no meu quarto, sozinho, e resolvi ficar por ali mesmo. Já nos primeiros minutos ficaram evidentes o domínio e a facilidade com que os ingleses comandavam a partida. Perdi o sono e comecei a prestar mais atenção na maneira como faziam aquilo. Para falar a verdade, comecei a ficar preocupado com o que estava por vir. Pela TV, parecia que eles estavam um nível acima do nosso, algo mais poderoso do que havíamos enfrentado até então. Não conseguia entender por que os jogadores do Monterrey não agrediam a marcação, não eram agudos quando roubavam a bola, e, pior, perdiam todas as divididas. Quando levavam a bola para um dos lados do campo, não conseguiam trocar quatro passes sem que o Chelsea a roubasse novamente. O time inglês era compacto, forte e veloz e a impressão que eu tive foi a de que eles nem precisaram pisar fundo no acelerador para vencer a partida. Assim que acabou o jogo, às 21h30 do horário local, eu capotei. Acordei às 7h30 do dia seguinte, curiosamente a minha melhor noite de sono desde a chegada ao Japão. SEXTA-FEIRA, 14/12, 8h Desci para o café e fui averiguar como foram as impressões de quem havia acompanhado o jogo in loco. “Estádio grande”; “o campo é um pouco maior que o anterior”; “não estava tão frio”; “um jogo bom”. Senti algo estranho no ar. As informações eram superficiais, ninguém falou que o time dos caras era bom ou que o jogo seria difícil. Parecia que ninguém queria assumir os sentimentos que aquele passeio dado pelo Chelsea resultou em nossa mente. Só quando o Felipe, zagueiro e meu companheiro de quarto, acordou é que pude arrancar as reais impressões e reações daqueles que foram ao jogo. Em resumo, ele disse que ficou surpreso e assustado com a qualidade do nosso adversário na final. Exatamente como eu, pensei. Ninguém assumiu o medo e a insegurança gerados a partir dali, mas, no semblante, todos demonstravam preocupação. No final da manhã, fui ao quarto do Bruno Mazzioti, fisioterapeuta, para o tratamento de manutenção dos meus joelhos. A “sala de fisioterapia” era um quarto normal no 11° andar. Naquele espaço havia duas camas, vários aparelhos e instrumentos de atendimento. Estirados sobre as camas estavam Douglas, com uma dor no adutor, e Fábio Santos, reclamando do músculo posterior da coxa. Sem opções, puxei uma cadeira, estiquei a perna por cima da cama e comecei a receber tratamento no tendão. De repente, o Fábio me olha e solta: “Nós vamos ganhar, Paulo?”. Aquela pergunta trouxe à tona tudo o que eu havia visto e sentido pela TV. Eu tinha ficado impressionado com a qualidade do Chelsea e sabia que não era o único a ter tido aquelas impressões, mas estava numa posição delicada, perigosa. O que eu dissesse poderia mudar a cabeça de dois jogadores muito importantes na nossa equipe. Eu não podia ser indiferente, não podia dizer que sim ou que não. Precisava compartilhar o que eu estava sentindo e minha resposta deveria ser suficientemente verdadeira para convencer aqueles dois companheiros de que a luta valeria a pena na batalha que estava por vir. E então saiu: “Só ganharemos se tivermos coragem, Fábio. Coragem para assumir riscos, fazer passes quando a vontade é dar chutão e afastar o perigo. Não podemos deixá-los com a bola nos pés o tempo todo. Temos que cutucá-los com força, chegar à frente e, sem dúvida, pressioná-los no campo deles quando a vontade for ficar esperando, para não errar e abrir espaço. Se fizermos isso, formos pra cima, teremos grandes chances”. “Então acho que vamos ganhar”, rebateu Fábio. Meio que sem querer, a conversa mudou de rumo e seguiu num tom ameno e divertido, sem o peso que estávamos carregando nos ombros. O Fábio relembrou a história do Edenílson, que em Nagoia, dias atrás, havia sido questionado pelo Guilherme Torres, que olhava atônito pela janela do quarto: “É neve, Edenílson?”. “Não, não, são pernilongos albinos”. Na hora do almoço, fui informado de que daria, ao lado do Guerrero, a entrevista coletiva. Apesar de estar acostumado comas entrevistas, daquela vez foi diferente. Havia dezenas de câmeras e jornalistas do mundo inteiro. O ambiente estava uma loucura e eu sabia que minhas palavras poderiam repercutir no mundo todo. Comecei falando de nossa vontade de vencer, dei algumas impressões sobre jogadores da equipe inglesa e como trabalharíamos isso na final. “Como parar o Chelsea?”, alguém perguntou. Não sei por que,mas veio à minha cabeça o jogo contra o Santos pela semifinal da Libertadores, quando conseguimos parar o Neymar. Segui essa linha de raciocínio porque era o que precisava ser feito para termos alguma chance na final. Só que para colocar a teoria em prática teríamos uma distância muito grande a percorrer. No final da tarde, saímos para treinar. O clima continuava tenso. Fomos para uma sala, ao lado do campo, que foi usada como vestiário para que passássemos ataduras, pomadas e fizéssemos um aquecimento prévio. Antes, paramos para um cafezinho, enquanto a caixa de som do Sheik tentava dar um ar descontraído ao ambiente, que tinha Paulinho e Julio Cesar colocando apelidos nos mais novos, Romarinho e Guerrero atirando qualquer coisa que voasse na cabeça dos que estivessem por perto, e a velha guarda, Chicão, Alessandro e Danilo, esticando as juntas e iniciando o alongamento. Surpreendendo a todos, Tite entrou e pediu para alinharmos as cadeiras em círculo, de forma que ele pudesse falar. Aquela seria a primeira vez que ele faria um discurso desde o jogo contra o Al-Ahly, havia dois dias. Ele começou dizendo que entendia como era difícil ter toda a responsabilidade do mundo sobre os ombros. Não analisou friamente o primeiro jogo, mas se colocou na nossa pele e entendeu o que nos fez recuar e permanecer acuados enquanto o time egípcio trocava passes em frente à nossa defesa. Em vez de “dar uma dura”, ele estava do nosso lado, mostrando-se compreensivo e, principalmente, um leitor perfeito dos nossos sentimentos naquele jogo. Então ele se aproximou de nós, repetindo que também sentiu pressão, demonstrando que ele também é humano, passível do peso da responsabilidade, o que nos fez muito bem. De repente, ele parou. Aumentou a respiração, chegou a ficar ofegante. Mudou as feições. Sua pele começou a enrubescer. Lentamente, ele olhou no olho da cada um. Girou o corpo até dar a volta completa e gritou: “Vocês vão olhar no olho dos caras, vocês vão dentro deles”. Seus olhos começaram a marejar. Naquele momento, a emoção tomou conta da sala e a vontade era de que o jogo começasse ali. Estávamos prontos para a guerra. Eu não sei como, mas as dúvidas se transformaram em certezas, o frio na barriga se transformou em coragem e uma sensação de conforto me invadiu. Ele dizia, no gauchês: “Nós vamos a morrer, até o fim. Não vamos parar, não vamos desistir. Eu quero e trabalhei a vida inteira para chegar aqui, alcançar o meu sonho, disputar essa final. Nós não vamos fazer como o outro time. Nós não vamos demorar 50 minutos para dar uma chegada em alguém. Eu não quero saber quem está do outro lado, eu quero competição, com lealdade, mas vamos dentro dos caras. Só precisamos repetir tudo aquilo que nos trouxe até aqui. Da mesma forma. Não vamos mudar nada, vamos jogar muito e vamos merecer vencer. Ao trabalho”, disse, apontando para o campo e terminando sua palestra. SÁBADO, 15/12, 12h Durante o almoço, o Fabio Carille, auxiliar do Tite, passou de mesa em mesa procurando os seis jogadores que compunham o sistema defensivo. Alessandro, Chicão, eu, Fabio Santos, Ralf e Paulinho fomos convidados para uma reunião que aconteceria dali 15 minutos. Nosso encontro foi, mais uma vez, no quarto da fisioterapia. Como quadro-negro em forma de campo e uma caneta esferográfica na mão, Tite começou: “Eu quero informar vocês que já conversei com o Douglas e quem vai jogar no lugar dele será o Jorge Henrique. Nós precisamos de mais velocidade nas beiradas, precisamos acelerar tanto a transição defensiva para ofensiva como a transição ofensiva/defensiva. O Jorge vai fazer a função que fez contra o Santos, na semifinal da Libertadores. (Nessa hora, pensei: Foi tudo o que falei para a imprensa ontem. Sem querer, entreguei o ouro para o bandido. Será que o Tite está bravo comigo?) Ele vai bloquear o lado esquerdo do adversário, auxiliando o Alessandro na marcação do Hazard e do Ashley Cole”. E prosseguiu: “Se eles vierem com Ramires, Mikel, Hazard, Mata, Oscar e Torres, acontecerá o seguinte: nossas duas válvulas de escape serão Paulinho e Fábio Santos. Por quê? Porque o Mata não fica enfiado na ponta direita, ou seja, teremos que fazer a bola chegar rápido naquele setor para conseguirmos triangular e sair. Se fecharem aquele espaço, o Paulinho vem buscar a bola entre os zagueiros e vai conduzi-la. Pode se mandar, Paulo, eles não vão te acompanhar. Caso contrário, Paulo André e Chicão têm a opção do fundo, com Sheik e Jorge Henrique”. E foi assim, sentados na cama do quarto, que definimos a tática que seria usada na grande final. Naquela noite, apesar da ansiedade, recebemos um brasileiro, amigo do Felipe, que mora há muito tempo no Japão e vende produtos eletrônicos desbloqueados. Ele foi ao nosso andar no hotel e o corredor virou um espaço para negócios. Jogadores, integrantes da comissão, rouparia e cozinha testavam aparelhos, faziam contas e compravam iPhones, iPads e máquinas fotográficas de todos os tipos. Fui para o quarto. Estava sem sono e resolvi arrumar a mala. Minha logística era mais complicada, porque eu mandaria algumas coisas de volta para o Brasil pelos companheiros e a outra parte seguiria comigo nas férias, nos Estados Unidos. Enquanto organizava as coisas, percebi que minhas mãos tremiam, não tinham firmeza para manusear as roupas. Não era o frio, mas sim ansiedade e tensão às vésperas do momento mais importante da minha vida. Quando percebi aquilo, sorri. A maturidade me permitiu perceber e aproveitar cada segundo daquela caminhada rumo ao dia D. Senti-me realizado por viver um momento como esse, mesmo que repleto de inseguranças e incertezas, porque estava confiante de que essa preocupação exacerbada não me deixaria falhar. Eu estaria atento demais para cometer um erro bobo, afinal, batalhei por 15 anos da minha vida sonhando disputar uma final como essa. As mãos foram se aquietando e fui relembrando toda a trajetória desse time. As agruras do Campeonato Brasileiro de 2011, com seus momentos trágicos e mágicos; a construção do título da Libertadores, do qual não pude participar; e, agora, um Mundial que estava tão perto e tão longe ao mesmo tempo. O bendito fuso horário finalmente serviu para alguma coisa. Quase que imediatamente após deitar, capotei. DOMINGO, 16/12, DIA DA FINAL, 11h40 Descemos para a última reunião do ano. Como de praxe, o primeiro slide da apresentação já estava disponível no telão: “Se você está percorrendo o caminho dos seus sonhos, comprometa-se com ele. Assuma o seu caminho de vitória. Enfrente-o com CORAGEM”. Em voz alta, o Tite leu essas palavras e iniciou seu discurso de motivação. Logo em seguida, passou três ou quatro vídeos curtos com os princípios de jogo e as estratégias que ele jamais nos deixa esquecer – em sua maioria, são nossos próprios exemplos de atitude e estratégia retirados de jogos importantes que fizemos durante todo o ano. Ele sempre bate na tecla de que foram esses esforços que nos conduziram por caminhos de sucesso nos últimos dois anos. Já vimos centenas de vezes os mais de 30 exemplos que ele nos dá, e ele sabe como ninguém evidenciar aquilo que é mais importante e que precisa ser enfatizado. Em seguida, assistimos aos curtos vídeos sobre o Chelsea, onde vimos pontos fortes e fracos. Novamente, pensei comigo mesmo, uma ação cirúrgica da comissão técnica, que conseguiu produzir um material encorajador, por conta da quantidade de falhas que encontramos na equipe inglesa. Nos pontos fracos vimos uma equipe com grande dificuldade na transição defensiva quando sua primeira linha de marcação era ultrapassada. Pelo menos era o que mostrava a maioria dos gols sofridos por eles na Liga dos Campeões e no Campeonato Inglês. Inconscientemente, ganhamos confiança, sentimos que eles eram de carne e osso. Tite não terminava a palestra e repetia coisas que já havia dito, não para reiterar, mas para espantar seu próprio nervosismo e certificar-se de que havia nos passado tudo. “Frio na barriga”, confessou, quando percebeu o que estava acontecendo. Por fim, ele nos entregou uma matéria que saíra no site da Fifa naquela manhã, falando sobre a multiplicação do time em campo, a disposição e a solidariedade com que aquela equipe jogava desde a Copa Libertadores. A tarde foi sem fim. A hora não passava. O sono não aparecia e o frio na barriga aumentava. DOMINGO, 16/12, SAÍDA PARA O ESTÁDIO, 17h Finalmente, estávamos todos sentados e posicionados no ônibus que nos levaria ao estádio. Tite chamou o Alessandro, que saiu do penúltimo banco à esquerda e foi ao encontro do treinador. Conversaram baixinho. Alguns segundos depois, desceram as TVs do ônibus e um vídeo começou a ser transmitido. Era mais uma produção da comissão, com a participação de nossos familiares. Cada um dos 23 jogadores estava sendo representado por alguém – mãe, pai, filhos, irmã ou irmão. Até a mãe do Guerrero e o pai do Martínez haviam sido gravados pelo Skype. Tudo muito emocionante, até que um dos pais começou a chorar, dizendo que o filho merecia estar ali, que era um exemplo e que voltaria campeão do mundo. Ninguém se moveu, todos evitaram olhar para o lado. Não era hora de chorar! A garganta segurou o choro, os olhos se encheram de lágrimas, a vontade de representar nossos familiares aumentou. O corpo todo estava arrepiado quando o vídeo acabou. Uma salva de palmas trouxe a normalidade ao ambiente enquanto uns olhavam de um lado para o outro para ver o tamanho do “estrago” feito por aquela surpresa. Ficou claro que o Tite queria saber a opinião do nosso capitão Alessandro com relação à apresentação, ou não, do vídeo. Emocionar demais os atletas seria bom ou ruim? Foi na medida certa, estávamos prontos para o jogo. Ao chegarmos ao vestiário, cada um encontrou seu material e a camisa de jogo pendurada no cabide. Eu sentei no meu box, respirei fundo e percebi que não tinha mais para onde correr. Na minha frente estava a maca na qual os enfermeiros e fisioterapeutas trabalhavam em ritmo acelerado. Uma fila se formou naquele lugar. Cássio foi o primeiro, depois o Chicão, Alessandro e Guerrero. Quatro injeções em menos de três minutos. Lembrei-me das inúmeras injeções que tomei nos últimos anos, a maioria delas para conseguir passar aqueles 90 minutos sem dor. Não precisei disso desta vez, mas estava atento e solidário porque sabia exatamente o tamanho do sofrimento e da dificuldade de cada um deles. Mas uma coisa me chamou a atenção: Cássio saiu de uma maca e foi para outra para que o Bruno Mazziotti mobilizasse seu ombro. Algo que já o vinha incomodando há meses e que, às vezes, ele dizia impedi-lo de levantar o próprio braço. Como eu me lembro de tudo isso? Ainda faltavam 30 minutos para o aquecimento e eu não tinha o que fazer ali dentro. Peguei meu celular e comecei a escrever tudo que estava acontecendo. Foi algo especial que me fez observar o Cássio naquela noite. Sua expressão de dor era nítida, mas tinha um olhar profundo, como quem estava concentrado, visualizando o que estava por vir – se bem que, talvez, nem em seus melhores sonhos ele imaginasse que iria apresentar tamanha perfeição muito em breve. No corredor, aguardando o comissário da Fifa que autoriza a entrada das duas equipes no campo, perfilamos ao lado do time inglês. O Ivanovic, um defensor alto e muito forte, começou a bater no peito como se estivesse pronto para a briga. Confesso não ter me impressionado, mas gostei da tentativa. Ao subir a escadaria que nos levou até o campo, senti uma alegria indescritível. O som do estádio aumentou e a nossa torcida fez uma verdadeira festa, dominando a cena no Yokohama Stadium. O juiz deu início à partida e, dali para frente, eu pouco consigo lembrar. As imagens devem falar muito mais do que eu poderia escrever. De qualquer forma, quando saímos para o intervalo e caminhamos até o vestiário, o encorajamento e a confiança tinham tomado conta do grupo. Sentamos no chão à espera do Tite, que, antes de passar as instruções, tem o costume de se reunir com três ou quatro membros da comissão para definir o que será passado, em termos de mudança, a nós, jogadores. Enquanto ele não aparecia, individualmente alguns jogadores tomaram a palavra. Alessandro disse que estava ótimo e, se continuássemos assim, ganharíamos. Paulinho repetiu, cobrando ainda mais intensidade. Eu pedi calma, pois teríamos mais espaços para jogar e, se mantivéssemos a marcação, teríamos a bola do jogo nas nossas mãos. E assim foi, de boca em boca, que a confiança explodiu em nossos corações. Após o jogo, eu cheguei à conclusão de que, enquanto chegávamos ao vestiário pensando: “Caramba, dá pra ganhar”, o Chelsea foi para o intervalo pensando: “Caramba, dá pra perder”. E o que se viu no segundo tempo foi exatamente isso. O gol do Guerrero veio coroar um segundo tempo magistral que fizemos. Fábio Santos e Danilo tabelavam pela esquerda como se estivessem na rua de casa. Paulinho se soltou mais e encontrou um buraco no meio-campo inglês. Jorge Henrique estava extenuado e, mesmo assim, não desistiu de nenhum lance. Nós, da defesa, mantivemos a coragem e seguramos a linha de quatro o mais alto possível. Enquanto Alessandro barrava o melhor jogador da equipe londrina, Cássio fazia seus milagres no estádio de Yokohama. Emerson Sheik aproveitou sua malandragem para expulsar o zagueiro adversário e o Ralf corria três vezes mais que qualquer um de nós. Depois, Wallace entrou para segurar a bola aérea e o guerreiro Paolo deu lugar para Martínez. Quando o juiz decretou o fim do jogo, só consegui dizer: “Campeão do Mundo, Campeão do Mundo, Campeão do Mundo!” A cabeça percorreu o estádio, pensou em cada corintiano que atravessou os continentes e estava ali testemunhando aquela noite inesquecível. Procurei meu pai e meu irmão por duas voltas olímpicas, mas não os encontrei. Só abraçaria os dois loucos lá de casa no dia seguinte, no café da manhã. Dei algumas entrevistas. O sorriso não saía do rosto. Voltamos ao hotel. Tomamos champanhe, cerveja, refrigerante e comemos, pela primeira vez em 15 dias no Japão, a verdadeira comida japonesa, com sushi e sashimi à vontade. Depois da celebração com toda a comissão e funcionários, subimos aos quartos para arrumar as malas. Fábio Santos, Douglas, Sheik, William Arão, Bruno Mazzioti, Edu Gaspar (gerente de futebol), Cleber (auxiliar do Tite), Duílio Monteiro Alves (diretor-adjunto de futebol), Roberto Andrade (diretor de futebol) e eu sentamos no chão do corredor do hotel e, como bons amigos de uma jornada incrível, começamos a conversar sobre toda a nossa caminhada até ali. Outros jogadores foram se aconchegando e o papo não teve fim. Ficamos até as 6h da manhã dividindo histórias e rindo da vida. Lembranças, amigos e sentimentos que jamais deixarão o meu coração e a minha mente. Somos campeões do mundo! Mas esse mesmo coração já começa a vislumbrar 2013 e quer voltar a bater acelerado com novas conquistas e grandes histórias. Quem sabe não voltarei aqui para contá-las? Foto:AFP *Texto escrito originalmente para a revista da ESPN.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

PRAZERES DA MELHOR IDADE (Melhor idade é a puta que te pariu - a melhor idade é de 18 aos 40 anos... ) A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte. Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica. Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão. Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar. Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!". E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir. Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução. Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 60 anos. Olha... a analise dele é rápida. Leva uns 20 metros e, quando pára, tem a discussão se você tem mais de 60 ou não. No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo: - "Sou deficiente". O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou: - "Que deficiência você tem?" - "Sou broxa!" Ele deu uma gargalhada e eu entrei. Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo... Eu disse bem baixinho para uma delas: - "Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não" Bem... fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol. Subi na pedra e pensei em cumprir a frase. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber? Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: "Dá a mão aqui, senhor!!!" Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça. Sentar na pedra e olhar a paisagem. É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora. Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê. Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz: - "O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair." Resmungo entre dentes: ... "só se cair em cima da sua mãe"... mas, dou um risinho e digo que esta tudo bem. Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada. Vou pensando - enquanto desço e o sol não - "Volto de metrô é mais rápido..." Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo. Olha sério para mim, segura a roleta e diz: - "O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem." A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso. Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos... Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega... Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam... Desisti... lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo. Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem. Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou. É agora... Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse: - "O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?" Melhor Idade??? Melhor idade é a puta que te pariu

quarta-feira, 30 de junho de 2010

DOIS ANDARES ABAIXO DO MEU

DOIS ANDARES ABAIXO DO MEU

Eliane Brum

Eu nunca tinha ouvido falar dela. Vivo neste edifício de 70 apartamentos há alguns anos. A maioria dos moradores só encontro na reunião de condomínio. Há o velho que toma sol pela manhã e que me cumprimenta sorridente porque lá em casa a gente se dá tchau na janela quando alguém sai. Ele acha curiosíssimo e acompanha o ritual enternecido. Há as mulheres que passeiam com os cachorros, e as que fiscalizam o crescimento das roseiras do jardim. Existe a vizinha que sempre tenta me vender produtos de beleza. E o Pedrão, um aumentativo irônico para um cachorro tão pequeno, tão desmilinguido e cego pela idade, que sobe e desce o elevador comigo, protegendo com olhos erráticos um dono que é quase um gigante. Há o vizinho de passo marcial que não cumprimenta ninguém. E ela, que morava lá havia uma eternidade, mas a quem eu nunca vira.

Numa tarde vêm o chaveiro, os bombeiros e a polícia. Arrombam a porta do apartamento. E somos todos lançados para dentro de uma paisagem muito semelhante à nossa, mas que era dela. As histórias de sua vida me alcançam aos farrapos. Aos 82 anos ela vivia só. Tinha sido médica, com consultório no centro de São Paulo. Era uma mulher independente, que veio do interior para vencer na cidade grande quando as mulheres de sua geração apenas recolhiam os passos até a casa do marido. Viajou o mundo, falava várias línguas, expressas nos livros espalhados pela casa. Não sei de seus amores, ninguém ali sabe. De repente, ela descobriu-se só. Não queria morrer, só não sabia como seguir vivendo. Resistiu viva – morrendo.

Há dois anos ela estacionou sua Brasília vermelha meticulosamente limpa e bem conservada numa vaga tamanho G. E nunca mais a tirou de lá. Poderia ter sido um sinal, mas um sinal só se torna um sinal se for decodificado. Este gerou apenas uma multa do condomínio. O carro deveria estar numa vaga M. Talvez P. Há pouco mais de um ano ela deixou de pagar a conta do condomínio. O acúmulo da dívida virou um processo judicial e uma primeira audiência a qual ela não compareceu. Outra pista não decifrada.

A vizinha do lado percebeu que ela não mais saía de casa. Insistiu com o síndico, com o zelador, algo estava errado. Ela nem atendia mais a porta, e um cheiro novo se impregnava no corredor. Mas a lei não escrita da cidade grande determina não perturbar a privacidade de ninguém. Cada um é uma ilha – ou um apartamento. Proprietário-indivíduo de seu número de metros quadrados aéreos no mundo. Os funcionários do condomínio devem avisar pelo interfone quando vão entregar uma correspondência que precisa ser assinada porque, do contrário, muitos moradores sequer abrem a porta. E ela era conhecida como “a doutora”, o título um abismo que ela e tantos se esforçam para cavar. Ninguém ousou perguntar se algo diferente, algo pior, estava acontecendo com ela.

Naquela tarde a conhecida de uma associação onde ela trabalhava como voluntária veio procurá-la, preocupada com seu sumiço. Ela então conseguiu se arrastar e sussurrar que não tinha forças para abrir a porta. Quando a porta caiu, e os fossos foram transpostos, descobriu-se que havia dois meses ela vivia no escuro, à luz de velas primeiro, nada depois. A energia elétrica tinha sido cortada por falta de pagamento. Há semanas ela não comia. Já não podia andar. A doutora estava morrendo de fome em meio a centenas de pessoas na cidade de milhões. Em sua própria sujeira.
Num prédio de classe média de São Paulo, ela estava mais isolada que qualquer ribeirinho dos confins da Amazônia. Não queria que descobrissem que havia perdido o controle da sua vida. E quando quis pedir ajuda, já não teve forças. Imagino quanto desespero sentia para conseguir romper as amarras de toda uma existência, se arrastar até a porta e admitir que não era mais capaz de abrir. Foi levada ao hospital, onde agora briga para viver.

Ela morava dois andares abaixo do meu. Quando eu soube, fiquei rememorando os últimos meses. Enquanto eu trabalhava, cozinhava, bebia vinho, tomava chimarrão, gargalhava, assistia a filmes, me emocionava com livros, me indignava com acontecimentos, conversava, namorava, sonhava, fazia planos, escrevia esta coluna e às vezes chorava, dois andares abaixo do meu, num espaço igual ao meu, uma mulher de 82 anos morria de fome nas trevas, em abissal solidão.

Enquanto eu ria, ela morria. Enquanto eu comia, ela morria. Enquanto eu sonhava, ela morria. No escuro, ela morria no escuro enquanto eu abanava da janela, o velho sorria ao sol, uma vizinha tentava me vender um novo creme antirrugas e Pedrão rosnava cegamente no elevador sob o olhar terno de seu gigante.

Não consegui dormir por algumas noites porque me via arremessada ao outro lado da rua, tentando imaginar os enredos que se passavam atrás das cortinas daqueles outros 69 apartamentos. Que vidas são aquelas, que dores se escondem, quais são os dramas que sou impotente para estancar? Anos atrás, antes de eu morar no prédio, um homem se lançou pela janela e morreu estatelado na laje. Como tantos o tempo todo. Um soluço apavorante na rotina e depois o esquecimento. Como agora, nesse morrer sem sangue e sem alarde.

Numa fissura do tempo algo que não pode mais ser oculto se revela – revelando também o nosso medo. Portas são derrubadas, cortinas rasgadas por um corpo que se lança para o nada, para nós. E, talvez pior, por um corpo que se esconde até ser exposto pelo cheiro da decomposição ainda antes da morte, corroendo os muros de nossa privacidade protegida com tanto empenho. Como a dela.

Depois precisamos esquecer para seguir vivendo. Mas não consigo esquecer. O que aconteceu com ela está acordado dentro de mim como um bicho. Dentro de nós também há um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem e o suicida que nos habita se lança no vazio enquanto outros em nós se decompõem em vida pela morte dos dias que não acontecem. Mergulho então, além dos dois que nos separavam, vários andares em mim. E lembro-me de Mário Sá-Carneiro, escritor português: “Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto. E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim”.

Acredito que todos no prédio ficaram chocados, cada um à sua maneira. Porque ninguém percebeu a tempestade logo ali. Porque tudo se passou enquanto no avesso de cada janela tentávamos viver. Mas também – e talvez principalmente por isso – porque a tragédia se desenrolou no mesmo cenário onde tecemos o enredo de nossos dias.
O apartamento dela é igual ao nosso. Esta semelhança de condições e de arquitetura, de portas e de janelas, nos provoca um incômodo difícil de dissipar. Poderia ser nós a morrer de fome no escuro. Mesmo com uma história diversa, lá no fundo cada um de nós sabe que a solidão nos espreita. Que não estamos tão protegidos como gostaríamos. Seria mais fácil afastar nosso horror se fosse um assassino, uma morte por ciúme, uma violência cometida por um psicopata. Isto está sempre mais longe. Mas não. A doutora morria logo ali por solidão. E isto está bem perto.

Ela não viveu uma vida à toa. Ou uma vida egoísta. Ela apenas viveu mais tempo do que a maioria de seus amigos, que deve ter sepultado um a um. Mais tempo que os pacientes que tantas vezes salvou, e então o consultório ficou vazio. Ela tinha bens que poderia ter vendido quando ficou restrita a uma renda que não lhe permitia manter o padrão. Mas não tinha mais saúde para fazer o que era preciso. Com o tempo, não conseguia mais nem caminhar até o banco para buscar o dinheiro da aposentadoria ou pagar a conta de luz ou qualquer outra. Lentamente os fios de sua vida foram lhe escapando das mãos. E, no fim, quando percebeu que precisava romper o pudor cimentado nela e pedir ajuda, já não era capaz de andar pela casa para abrir a porta da rua e escancarar sua miséria. A doutora não queria morrer, só não tinha forças para viver neste mundo.

Por um tempo fiquei acordada pelas madrugadas, dormindo nas auroras, aterrorizada com as vidas desconhecidas abaixo e acima de mim, com os socorros que eu não sabia que precisava prestar, com o monstro de olhos abertos em mim. Devagar, comecei a pensar nas minhas escolhas. E agora tento aprender a amar melhor, para além das paredes de meus metros quadrados de mundo, mais iguais às dela do que eu e todos gostaríamos.

ELIANE BRUM
ebrum@edglobo.com.br
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

http://revistaepoca.globo.com/ Revista/Epoca/0,,EMI148941- 15230,00-DOIS+ANDARES+ABAIXO+ DO+MEU.html

sexta-feira, 12 de março de 2010

Flores

O papel higiênico da empregada, por Martha Medeiros

Quando a gente é criança, acha que todo mundo é legal, que todo mundo é da paz, e de repente começa a crescer e vai descobrindo que não é bem assim. Eu lembro que, ainda menina, foi um choque descobrir que as pessoas mentiam, enganavam, eram agressivas. Porque aquelas pessoas não eram bandidas: eram colegas de aula, gente conhecida. Eu ficava confusa. Fulana era generosa com os amigos e, ao mesmo tempo, extremamente estúpida com a própria mãe. Beltrana ia à missa todo domingo e nos outros dias remexia na mochila dos colegas para roubar material escolar. Cicrana era sua melhor amiga na terça-feira e na quarta não olhava pra sua cara. Eu chegava em casa, pedia explicações pra família e recebia como resposta: bem-vinda ao mundo. Eu queria o impossível: olhar para uma pessoa e saber o que poderia esperar dela. Era uma pessoa do bem? Do mal? Poderia me decepcionar? Todas as pessoas decepcionam, todas cometem erros, mas eu queria encontrar alguma espécie de comportamento que me desse uma pista segura sobre com quem eu estava lidando. Até que certo dia fui na casa de uma colega. De repente, precisei ir ao banheiro. Só havia um no apartamento, e ocupado. Eu estava apertada. Apertadíssima. Minha amiga sugeriu que eu usasse o banheiro da empregada, topei na hora. E lá descobri que o papel higiênico da empregada era diferente do papel usado pelos outros membros da família. Era mais áspero. Parecia uma lixa. Muito mais barato. Era um costume, e talvez seja até hoje: comprar um tipo de papel higiênico para a família e outro, de pior qualidade, para o banheiro de serviço. Eis ali a pista que eu inocentemente buscava para descobrir a índole das pessoas. Hoje, adulta, sei que descobrir a índole de alguém é um processo muito mais complexo, mas ainda me surpreendo que algumas pessoas façam certas diferenciações. O relacionamento entre empregados e patrões ainda é uma maneira de se perceber como certos preconceitos seguem bem firmes. Não é por economia que se compra papel higiênico mais barato pra empregada, por mais que seja este o argumento usado por quem o faz. É para segmentar as castas. É para manter a hierarquia. É pela manutenção do poder. As pessoas querem tanto acabar com as injustiças sociais e, às vezes, não conseguem mudar pequenas regras dentro da sua própria casa. Cada um de nós tem um potencial revolucionário, que pode manifestar-se através de pequenos gestos. Comprar o mesmo papel higiênico para todos, quem diria, também é uma maneira de lutar por um mundo melhor.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Lição

As sandálias do discípulo ressoavam surdamente nos degraus de pedra que levavam aos porões do velho mosteiro.
Empurrou a pesada porta de madeira que cerrava os aposentos do ancião e custou a localizá-lo na densa penumbra, o rosto velado por um capuz, sentado atrás de enorme escrivaninha onde, apesar do escuro, fazia anotações num grande livro, tão velho quanto ele.
E o discípulo o inquiriu:
- Mestre, qual o sentido da vida?
O idoso monge, permanecendo em silêncio, apenas apontou um pedaço de pano, um trapo grosseiro no chão junto à parede e logo após, seu indicador ossudo e encarquilhado mostrou logo acima, no alto do aposento o vidro da janela, opaco sob décadas de poeira e teias de aranha.
O discípulo pegou o pano e subindo em algumas prateleiras de uma pesada estante forrada de livros conseguiu alcançar a vidraça, começando então a esfregá-la com vigor, retirando a sujeira que impedia sua transparência.
O sol inundou o aposento, banhando com sua luz estranhos objetos, instrumentos raros e dezenas de papiros e pergaminhos com misteriosas anotações e signos cabalísticos.

O discípulo, sem caber em si de contentamento, a fisionomia denotando o brilho da satisfação declarou:
- Entendi, mestre. Devemos nos livrar de tudo que obste nosso aprendizado; buscar retirar o pó dos preconceitos e as teias das opiniões que impedem que a luz do conhecimento nos atinja e só então poderemos enxergar as coisas com mais nitidez, partindo então para a evolução.
E assim, o jovem discípulo fez uma reverência deixou o aposento, agora iluminado, a fim de dividir com os outros a lição recém aprendida.
O velho monge, o rosto enrugado ainda encoberto pelo largo capuz, os raios do sol da manhã agora banhando-o com uma claridade a que se desacostumara, viu o discípulo se afastando e deixou escapar um tênue sorriso.
- Mais importante do que aquilo que alguém mostra é o que o outro enxerga... pensou ele.
E murmurando baixinho:
- Eu só queria que ele colocasse o pano no lugar de onde caiu.

E-MAIL ERRADO

Um homem deixou as ruas cheias de neve de Chicago para umas férias na ensolarada Flórida. A sua esposa estava numa viagem de negócios e estava a planejar encontrá-lo lá no dia seguinte. Quando o homem chegou ao hotel resolveu mandar um e-mail para a sua mulher. Como não achou o papel em que tinha anotado o endereço do e-mail dela, tirou da memória o que se lembrava e torceu para que estivesse certo. Infelizmente ele errou numa letra e a mensagem foi para a mulher de um pastor. Este pastor tinha morrido no dia anterior. Quando ela foi ver os seus e-mails, deu um grito de profundo horror e caiu dura e morta no chão. Ao ouvir o grito, os seus familiares correram para o quarto e leram o seguinte:" Querida esposa, acabei de chegar. Foi uma longa viagem. Aqui é tudo muito bonito, muitas árvores, jardins... Apesar de só estar aqui há poucas horas, já estou a gostar muito. Agora vou descansar. Falei aqui com o pessoal e está tudo preparado para a tua chegada amanhã. Tenho a certeza de que também vais gostar... Beijos do teu eterno e amoroso marido.PS: Está fazendo um calor infernal aqui!!!"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Estamos com fome de amor

Estamos com fome de amor – (Arnaldo Jabor) 10/11/2007


Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e
transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam
sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que
estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.
Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os
novíssimos “personal dance”, incrível. E não é só sexo não, se fosse, era
resolvido fácil, alguém duvída?
Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.
Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”, só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.
Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como:
“Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra ser sozinho!” Unindo milhares ou melhor milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.
Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.
Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.
Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí?
Seja ridículo, não seja frustrado, “pague mico”, saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à dois.
Quem disse que ser adulto é ser ranzinza, um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: “vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”.

Antes idiota que infeliz!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O REENCONTRO

Paulinho vivia triste e solitário em um orfanato desde o dia em que nasceu. Maior que todos os outros orfãos de lá, ele sonhava em ter um lar, uma família e também, que um dia ele pudesse voar como os pássaros. Ele queria ser livre como eles para ir onde quisesse. Conforme ele foi crescendo, foi compreendendo o porquê de não ter pais, mas era muito difícil para ele entender porque não podia voar. Sempre que o orfanato organizava excursões ao Zoológico, ele ficava encantado com os pássaros. Se o deixassem, ele ficaria somente apreciando as aves do lugar e enquanto ele as admirava, uma pergunta teimava em ecoar em sua mente.

- Se aqui no Zoológico existem pássaros muito maiores do que eu, e eles podem voar, por que eu não posso? Ele pensava.

- Será que há alguma coisa errada comigo? Ele imaginou.

Perto do orfanato onde Paulinho vivia, morava um menino que era deficiente físico. Ele não podia andar. O garotinho tinha um sonho. Ele sempre desejou poder correr como os outros meninos e meninas da vizinhança. Sempre que seu velho pai o levava à pracinha para tomar sol, ele ficava olhando as outras crianças correndo e brincando de um lado para o outro, e uma pergunta também teimava em ecoar em sua mente:

- Por que eu não posso ser igual a todas as outras crianças? Ele pensava.

Certo dia, Paulinho que queria poder voar igual aos pássaros, pulou o muro do orfanato e fugiu. Ele apenas atravessou a rua movimentada e se viu na pracinha, ao lado da piscina de areia onde ele viu o pequeno garoto deficiente, que não podia caminhar, nem correr como as outras crianças do lugar. Ele nunca tinha visto o garoto e não sabia que ele era deficiente. Paulinho se aproximou do pequenino que estava sentado brincando de fazer castelos de areia e perguntou a ele se nunca tinha tido vontade de voar como os pássaros e o garotinho respondeu:

-Não. Mas eu sempre fico imaginando como seria bom se eu pudesse andar e correr igual aos outros meninos e meninas.

Foi então que ele descobriu a deficiência do garotinho, e com o coração apertado pelo sofrimento dele, Paulinho que sempre quis poder voar disse a ele:

-Isto é muito triste.

-Será que podemos ser amigos?

Surpreso, o menino deficiente disse que sim. Os dois sorriram um para o outro e brincaram por horas a fio. Eles fizeram juntos muitos castelos de areia e varias esculturas com a ajuda da água que Paulinho ia buscar na fonte com a ajuda do pequeno balde de plástico do menino. Eles riram muito o tempo todo das coisas engraçadas que faziam ou diziam. Já havia passado muito tempo desde que começaram a brincar juntos. Já era quase hora do almoço quando o pai do pequenino veio buscá-lo com a cadeira de rodas. Ao ver a cadeira onde seu novo amiguinho vivia sentado a maior parte do tempo, o coração de Paulinho disse a ele o que deveria ser feito. O garoto órfão, que sempre quis voar como os pássaros e não podia, aproximou-se do pai do pobre menino e disse-lhe algo no ouvido.

- Tudo bem, se é isto mesmo o que quer fazer. Disse o homem sorrindo.

Paulinho, o pequeno órfão que sempre quis voar como os pássaros, correu para perto do seu novo amiguinho e disse:

- Você é o meu primeiro e único amigo nesta vida. Eu agradeço por ter passado ao meu lado todas estas horas e quero que saiba que eu nunca fui tão feliz assim. Gostaria muito de ter o poder de fazer alguma coisa para que você pudesse andar e correr como as outras crianças, mas eu sinto muito por não poder.

O menino deficiente olhou para ele com lágrimas nos olhos e disse que estava tudo bem. Afinal ele já estava mesmo acostumado a ficar sentado o tempo todo. Foi então que Paulinho disse a ele que mesmo não podendo ajudá-lo a andar e correr, ainda tinha uma coisa que poderia fazer por ele. O pequeno órfão aproximou-se da cadeira de rodas onde já estava sentado seu novo amigo, abaixou-se e pediu a ele que colocasse suas pernas em seus ombros e segurasse firme em suas mãos porque ele iria carregá-lo nas costas. O menino ficou confuso, não sabia se deveria ou não e olhou para seu pai. Ele balançou a cabeça em sinal de aprovação e então, sem muito esforço pelo fato dele ser muito menor do que ele e também magrinho, Paulinho o carregou nas costas.

A princípio, ele caminhou devagar, levando o pequenino nas costas que admirava tudo na pracinha sob outra perspectiva, e ele sorria como nunca. Quando ele pedia a Paulinho para ir numa certa direção, ele o fazia, e a cada passo, o menino sorria mais e mais. Ele estava andando! Ele podia ir onde ele quisesse com a ajuda de Paulinho! Em dado momento, Paulinho ao ve-lo tão feliz, lembrou-se também de seu sonho de poder voar. Foi então que ele começou a andar mais depressa com seu amiguinho em suas costas. Não demorou muito para que eles estivessem correndo sobre a grama do jardim. Confiante em seu novo amigo, o pequeno deficiente soltou as mãos dele, que passou a segura-lo pelas pernas para que não caísse. Ele pedia a Paulinho que fosse mais rápido, e mais rápido ele correu com ele sentado em seus ombros.

A certa altura, eles já estavam correndo tanto, que o vento começou a balançar os cabelos dos dois. O garotinho deficiente levantou os dois braços e começou a movimentá-los como se fossem as asas de um pássaro. Tanto Paulinho, quanto o pai do menino, começaram a chorar quando ele começou bater os braços ao vento, para cima e para baixo, como se fossem suas asas e maravilhado pelo que estava acontecendo, ele começou a gritar a toda voz, com o mais belo sorriso de alegria, liberdade e contentamento que uma criança pode ter em seus lábios:

- ESTOU VOANDO! ESTOU VOANDO!

Quando já estavam cansados, Paulinho o colocou de volta na cadeira, deu a ele um abraço como nunca dera ou recebera de alguém e disse que nunca mais o esqueceria. O menino sorrindo olhando-o nos olhos, agradeceu pelos momentos especiais que haviam vivido juntos e se despediu. O pai do menino deu um abraço apertado em Paulinho, dizendo que se encontrariam no mesmo lugar no dia seguinte. O menino órfão que sempre quis poder voar e não conseguiu, feliz por ter proporcionado ao seu novo amiguinho a sensação de estar voando, livre para ir onde quisesse, resolveu voltar ao orfanato. No dia seguinte pela manhã, um casal veio ao orfanato com a intenção de escolher uma criança para adotar, e no ultimo instante, quando já estavam prontos para ir embora, sem encontrar o que tinham ido procurar, Paulinho que estava do outro lado da casa, deu a volta para encurtar o caminho para o seu quarto, entrou correndo e quase os atropelou. Tudo que aconteceu depois, foi o que estava escrito que iria acontecer.

Eles se olharam e sorrindo, disseram ao mesmo tempo que Paulinho era o filho que procuravam. Naquele mesmo dia, ele foi adotado e levado para a casa de seus novos pais. Nunca mais ele teve noticias no seu amiguinho que conheceu na piscina de areia da pracinha. Por vezes, ele imaginava em como ele deveria ter ficado decepcionado pelo fato dele não ter ido encontrá-lo naquele dia em que partiu. O tempo passou. O menino que foi criado num orfanato desde que nasceu e foi adotado por um casal que passou a amá-lo como se fosse seu próprio filho. Ele estudou muito, formou-se, e o dia mais feliz de sua vida, foi quando finalmente ele conseguiu realizar seu velho sonho de poder voar. Após entrar para a aeronáutica, finalmente chegou o dia em que ele conseguiu tirar seu Breve de piloto. Numa manhã ensolarada, com um céu tão azul quanto o anil, ele decolou em seu primeiro vôo solo do Campo de Marte em Santana, rumo à Base Aérea de Cumbica em Guarulhos.

Tendo como cenário do lado de fora da carlinga de seu avião, apenas um imenso e infinito tapete azul, radiante por ter conseguido realizar seu sonho, ele não pode deixar de se lembrar de seu amiguinho. De quando ele gritava que estava voando sentado em seus ombros, enquanto corriam ao vento naquela pracinha. A emoção tomou conta de seu peito e ele não se conteve, e, a toda voz, sem se importar se alguém o estava ouvindo pelo rádio ou não, ele gritou chorando e sorrindo ao mesmo tempo:

- ESTOU VOANDO! ESTOU VOANDO!

Naquele exato momento, na cabine de Torre de Controle de Vôo da base aérea de Cumbica, com lágrimas nos olhos, pelo rádio um jovem controlador ouvia os gritos de felicidade de Paulinho, sem saber quem na verdade ele era, nem de onde tinha vindo. Ao ouvir os gritos do piloto, ele se lembrou do tempo em que não podia andar, da piscina de areia daquela pracinha perto de onde ele morava e do amigo que conheceu lá, do menino que proporcionou a ele os melhores momentos de sua infância carregando-o nas costas naquele dia, quando ele gritou de peito aberto, ao parecer estava voando, as mesmas palavras que ouviu do piloto pelo rádio. Do mais fundo de seu coração, ele desejou que um dia ele pudesse reencontrar Paulinho. Queria mostrar a ele que finalmente, com a ajuda de aparelhos, havia voltado a andar, podendo estudar e trabalhar normalmente e que graças a ele, e às lembranças daquele dia, ele decidiu tornar-se um controlador de vôo.

Pouco tempo depois, um avião é detectado pelo radar da Base Aérea de Cumbica e o controlador dá as instruções ao piloto:

- Arara GRU a Tucano SP na escuta?

- Tucano SP na escuta, fale Arara GRU.

- Tucano SP, inicie a descida para aterrissagem.

- Tucano SP entendido Arara GRU.

- Arara GRU para Tucano SP.

- Aqui Tucano SP, pode falar Arara GRU.

- Tucano SP, pouso liberado, pista lateral.

- Ok Arara GRU, fazendo a volta para aterrissar.

- Entendido Tucano SP, prossiga.

Ao aproximar-se da cabeceira da pista, Paulinho, agora o capitão Paulo, contemplou a imensa faixa negra da pista bem à sua frente. Quando os pneus traseiros tocaram o asfalto, seguidos logo depois pelos dianteiros, ele sorriu. Vôo perfeito para um principiante. Ele pensou. Após taxiar pela pista lateral da Base Aérea, observado do alto da torre pelo controlador de vôo, ele deixou o avião no hangar e de alguma forma, sentiu vontade de passar pela torre de controle e agradecer ao homem que o ajudou a pousar em segurança. Ao subir a escada, chegando onde ficavam os radares e os controladores, perguntando aos que estavam lá quem o havia instruído em sua aterrissagem, um deles apontou com o dedo um rapaz que estava apoiado numa muleta contemplando o vôo de algumas garças que voavam ao longe.

Ao aproximar-se, para chamar a atenção do rapaz que estava de costas, ele colocou levemente a sua mão no ombro dele. Quando ele se virou em sua direção, os dois emudeceram. Mesmo após longos anos distantes um do outro, eles se reconheceram. Foi como se um filme daquele dia na pracinha estivesse sendo exibido em suas mentes. Sem dizer uma única palavra, eles se abraçaram. Entre lágrimas e sorrisos, sob o espanto dos outros homens que estavam na torre, eles mataram as saudades e contaram um ao outro, tudo que aconteceu em suas vidas, desde aquele dia em que se conheceram.

Um queria voar e não podia, o outro queria andar e correr, mas também não podia.

Paulinho não conseguiu voar quando era pequeno, mas pode ensinar seu amigo a querer voar. Juntos, eles conseguiram, porque mesmo distantes um do outro, aprenderam que a liberdade não está só no fato de se poder voar, mas também no ato de sonhar, de acreditar em nossos sonhos, nos sonhos das outras pessoas e querer realizá-los, porque sem eles, ninguém pode, nem aprende a voar.

Contos-->O REENCONTRO -- 16/08/2009 - 14:05 (Jose Araujo)
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poema aos amigos

Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida
nem tenho resposta para as tuas duvidas ou medos
mas posso escutar-te e compartilhá-las contigo...

Não posso mudar o teu passado e futuro
mas quando precisares de mim, estarei junto a ti

Não posso evitar que tropeçes
só posso oferecer-te a minha mão para que te apoies e não caias

Tuas alegrias, triunfos e êxitos não são meus
mas disfruto sinceramente quando te vejo feliz

Não julgo as decisões que tomas na vida, limito-me a apoiar-te, a estimular-te e a ajudar-te, se mo pedes

Não posso traçar-te limites dentro dos quais deves agir, mas sim oferecer-te esse espaço, necessário para crescer

Não posso evitar teu sofrimento quando alguma pena te parte o coração
mas posso chorar contigo e recolher os pedaços para amar novamente

Não posso decidir quem és, nem quem deverias ser
só posso amar-te como és e ser teu amigo

Nestes dias pensei nos meus amigos e amigas
não estavas nem acima nem abaixo da média
Não começavas nem acabavas a lista
não eras o primeiro nem o último

(...)

E tão pouco tenho a pretensão de ser o primeiro, o segundo ou o terceiro da tua lista

Basta que me queiras como amigo...
Obrigado por o seres.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

DA SÉRIE: IMAGENS DE SAMPA-3

Foto de prédio tombado pelo Patrimônio Histórico situado no Páteo do Colégio, centro de Sampa.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

As 10 melhores desculpas

As 10 melhores desculpas para dar a alguém que te pegou dormindo no trabalho por

Wallace Henrique em Curiosidades

1. “Eles me disseram no banco de sangue que isso poderia acontecer.”

2. “Isto é só um cochilo de 15 minutos para recuperar as energias, como foi ensinado naquele curso de gerenciamento do tempo que vocês me mandaram fazer.”

3. “Eu estava imaginando como é a vida de um cego.”

4. “Eu não estava dormindo! Eu estava meditando sobre a missão da empresa e tentando descobrir um novo paradigma.”

5. “Eu estava verificando se meu teclado é resistente à baba.”

6. “Eu estava fazendo um exercício altamente especifico de Yoga para aliviar o stress do trabalho. Vocês descriminam pessoas que praticam Yoga?”

7. “Por que você me interrompeu? Eu estava quase chegando numa solução para o nosso maior problema.”

8. “A máquina de café está quebrada.”

9. “Alguém deve ter posto café descafeinado no pote errado.”

10. “… e em nome de Jesus. Amém.”

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Simplicidade “Luís Fernando Veríssimo”

Simplicidade

Cada semana, uma novidade.

A última, foi que pizza previne câncer do esôfago.

Acho a maior graça.

Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas, peraí , não exagere…

Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.

Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal prá minha saúde.

Prazer faz muito bem.

Dormir me deixa 0 km.

Ler um bom livro, faz-me sentir novo em folha.

Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas, depois, rejuvenesço uns cinco anos ! Viagens aéreas não me incham as pernas;

incham-me o cérebro, volto cheio de idéias !

Brigar,me provoca arritmia cardíaca.

Ver pessoas tendo acessos de estupidez,me embrulha o estômago !

Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro,me faz perder toda a fé no ser humano…

E telejornais…

Os médicos deveriam proibir… como doem !

Caminhar faz bem, namorar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.

Acordar de manhã, arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite,isso sim,é prejudicial à saúde.

E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas,pior ainda.

Não pedir perdão pelas nossas mancadas, dá câncer, guardar mágoas, ser pessimista, preconceituoso ou falso moralista, não há tomate ou muzzarela que previna !

Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo,não ter ninguém atrapalhando sua visão,nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau !

Cinema é melhor prá saúde do que pipoca.

Conversa é melhor do que piada.

Exercício é melhor do que cirurgia.

Humor é melhor do que rancor.

Amigos são melhores do que gente influente.

Economia é melhor do que dívida.

Pergunta é melhor do que dúvida.

Sonhar é o melhor de tudo e muito melhor do que nada !

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Habeas Pinho

Habeas Pinho

Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serenata foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido. o famoso poeta e atual senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.


Senhor Juiz.
Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do "crime"que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno acoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.


O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha LIma: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte á rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar á porta do Juiz.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sentença judicial datada de l833

Como faz falta um juiz deste nos nossos dias.

Histórias do nosso Brasil
Sentença condenatória de Sergipe, de 1833, que condenou o cabra à capadura
Eis o texto na íntegra...
"O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia
11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já
perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de
supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a
lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando
as encomendas della de fora e ao Deus dará.
Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e
Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante.
Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz
prova.
CONSIDERO:
QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e
fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados
pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;
QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias
de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer; conxambranas com a Quitéria e Clarinha,
moças donzellas;
QUE Manoel Duda é um sujetio perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança
dele, amanhan está metendo medo até nos homens.
CONDENO o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser
CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE.
A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro.
Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.
Manoel Fernandes dos Santos,
Juiz de Direito da Vila de Porto da Folha
(Sergipe), 15 de outubro de 1833.".
Fonte: Instituto Histórico de Alagoas)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sim, nós podemos

Do Último Segundo
Coluna Econômica – 04/10/2009
Estava almoçando com um amigo banqueiro quando veio a notícia de que o Rio de Janeiro havia sido escolhido cidade-sede das próximas Olimpíadas. Mandou abrir um vinho em comemoração. De manhã, um funcionário dele, em Copenhagem, mandou email informando que na cidade só se falava em Lula, uma euforia completa apenas pela presença de Lula por lá.

No restaurante, as mesas comemoraram pedindo vinhos e champagnes. Nas ruas, uma população orgulhosa do feito brasileiro. No Blog, centenas de comentários de leitores orgulhosos de serem brasileiros, finalmente orgulhosos de serem brasileiros, repito.

Chego no escritório, ligo a Internet e procuro o vídeo com o discurso de Lula, defendendo a candidatura do Rio e, depois, com Lula com os olhos marejados falando de sua maior especialidade: o modo de ser brasileiro. Tecendo loas ao Brasil, ao Rio, à ginga, à alma brasileira.

E me espanto de como é possível que parte da opinião pública ainda não tenha se dado conta da dimensão política global de Lula. Ele se tornou um dos governantes paradigmáticos do maior processo de transformações que a humanidade atravessa desde o pós-guerra.

***

A população pobre, que era custo, hoje se tornou o grande ativo dos emergentes China, Índia e Brasil. Lula representa não apenas a história de sucesso do operário que chegou a presidente. O polonês Lech Walesa também teve esse papel e não passou de mera curiosidade histórica. Já Lula tem desempenhado um papel civilizatório inimaginável.

Assumiu um país exaurido pela insensibilidade social, liderando um continente propenso a exageros populistas históricos, como contraposição aos exageros liberais. Globalmente, o fracasso das políticas neoliberais projetou uma sombra de xenofobia, intolerância e radicalização sobre todos os continentes.

Foi nesse ambiente propício à radicalização que Lula projetou sua imagem de pacificador, de agente do processo civilizatório mundial.

Com a mesma bonomia com que trata seus adversários políticos no Brasil, ou como tratava os peões de fábrica no ABC, ajudou a criar uma alternativa democrática no continente, orientando Evo Morales, contendo os arroubos de Hugo Chávez, tornando-se a esperança do Ocidente de manter uma porta aberta com o Irã.

Quando leva Obama para uma sala para explicar, em um bate-papo, como agir no caso do Irã, o severino retirante se despe de toda liturgia do cargo, dos tremeliques da diplomacia, usa a linguagem tosca e direta com que as pessoas normais se comunicam e ajuda a desenhar a nova diplomacia mundial. E com a cara do Brasil, a afetividade do Brasil, alisando as pessoas, tratando-as com o carinho brasileiro.

Na coletiva que deu após a escolha do Rio, a profissão de fé no Brasil entrará para a história. O orgulho de ser brasileiro, o “sim, nós podemos” entra definitivamente para o repertório brasileiro do século 21, do mesmo modo que JK empurrou o país com seu otimismo e sua genuína crença no valor do brasileiro.

Daqui a vinte anos, quando o país estiver definitivamente entronizado no panteão dos grandes países do mundo, será mais fácil avaliar a verdadeira dimensão de Lula, como o grande timoneiro dessa travessia.

do blog de Luis Nassif

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Assalto a banco...

Ligação telefônica para um banco:


- Alô? Quem tá falando?



- Aqui é o ladrão.
- Desculpe, a telefonista deve ter se enganado, eu não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí?
- Não, os funcionários tá tudo refém.
- Há, eu entendo. Afinal, eles trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil... mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
- Impossível. Eles tá tudo amordaçado.
- Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
- Claro que não mermão. Quanta inguinorânça! O chefe tá na cadeia, que é o lugar mais seguro pra se comandar assalto!
- Bom... Sabe o que que é? Eu tenho uma conta....
- Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero!
- Não, isso eu já sabia. Eu sou professor! O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.
- Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um seqüestro. Pra saber de juro é melhor tu ligá pra Brasília.
- Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia.... mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.
- Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!
- Longe de mim pensar que o senhor está de brincadeira! Que é um assalto eu sei perfeitamente; ninguém no mundo cobra os juros que cobram no Brasil. Mas queria saber o número preciso: seis por cento, sete por cento?
- Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
- Ah, já tava esperando. Você vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?
- Não.... já falei... eu sou... Peraí bacana... hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho.

(um minuto depois)

- Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.
- Puxa, que incrível!
- Incrive por que? Tu achava que era menos?
- Não, achava que era mais ou menos isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, eu consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço pelo telefone em menos de meia hora e sem ouvir 'Pour Elise'.
- Quer saber? Fui com a tua cara. Acabei de dar umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?
- Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?
- Nadica de nada, já tá tudo acertado!
- Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa...
(De repente, ouvem-se tiros, gritos)
- Ih, sujou! Puliça!
- Polícia? Que polícia? Alô? Alô?
(sinal de ocupado)
- Droga! Maldito Estado: quando o negócio começa a funcionar, entra o Governo e caga tudo!

Luís Fernando Veríssimo